Alguém aí vai fazer engenharia? Perguntava um vestibulando num grupo do face específico para o vestibular da UFSC. E outras profissões desfilaram solenemente. Os feiceiros vestibulandos soltavam um grito, como eco, esperando resposta. Ninguém quer a solidão.
Curioso é que não ouvi a pergunta: Alguém aí vai ser professor?
Será que haveria eco? Talvez um ou outro, tímido, ecoasse este grito solitário. Isso me deixa bem triste, porque acabo de me dar conta de que, exatamente em março de 2012, completei 20 anos de sala de aula.
Foram 20 anos de giz e quadro, dando aulas entre o Rio Grande do Sul e Santa Catarina. Às vezes percorrendo milhares de quilômetros por semana, dormindo noites inteiras em ônibus.
Duas filhas lindas sustentadas pelo giz deste professor.
Só posso agradecer aos astros o dia em que escolhi Letras, porque queria ser escritor. Faz vinte anos, peguei do giz, enfrentei 100 alunos num curso supletivo em Porto Alegre e dei minha aula, minha primeira aula. Foi contágio, foi mágico.
Desde então, percebi que gostava por demais daquilo que fazia e fazia com profunda paixão. Milhares de alunos passaram por minhas salas de aula, nas mais diversas escolas, e hoje encontro vários por todos os cantos: médicos, advogados, dentistas.
Não há nada mais gratificante na vida do que saber que fomos úteis em algum momento para o outro. E é exatamente aí que reside a magia desta profissão.
Um momento encantador foi aquele no qual encontrei uma ex-aluna de supletivo num elevador. Ela me olhou, perguntou se eu lembrava dela. Respondi que sim (mentirinha justificada) e ela falou frases que jamais esquecerei. Disse que tinha se tornado professora de Português por minha causa.
Se professor ganha pouco, se tem de vender Avon para sobreviver, se não é reconhecido pela sociedade, tudo isso é a mais verdadeira das verdades. Contudo, um orgulho maior se alevanta nesta alma de 20 anos de giz e quadro.
Tive milhares de alunos que hoje lembram de minhas aulas, tive milhares de amigos ao longo desta jornada.
Nada, absolutamente nada vale tanto. Ser professor, neste país de pouco cultura e muita hipocrisia, república de bacharéis e doutores de diplomas duvidosos, é muito maior.
Aguardo mais vinte anos e mais milhares de alunos, pois meu giz continua afiado e minha voz, tenho certeza, que ecoa em muitas consciências.
Antônio Ricardo Russo





